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Mulher da semana: Carla Bruni

por Henrique Monteiro, em 03.08.08

 

Foi há mais de 200 anos que o jornalista Camille Desmoullins correu pelas vias principais e ruas de Paris, aventando que as tropas reais estavam para reprimir dura e sangrentamente a população e que todos deveriam defender-se, armar-se antes que fosse tarde. Foi por conta dos proclamas de Desmoullins que a prisão conhecida como Bastilha foi invadida por uma massa de chapeleiros, guardas, vendedores e inválidos insurgentes. Uma centena de mortos mais tarde, veríamos o governador da Bastilha, à moda da época, devidamente decapitado e sua cabeça espetada numa lança para exibição pública. Os símbolos reais não eram mais intocáveis. Um acontecimento esplêndido, de terríveis conseqüências e que nos ensina uma valiosa lição: poucas coisas mais perigosas que um jornalista de pulmões saudáveis.

Foi por esses dias – mais da metade da história aqui deve ser percebida como tendo acontecido em dias – que o empresário brasileiro Maurizio Remmert deu uma entrevista ao jornal O Estado de São Paulo falando sobre a paternidade instantânea, sobre sua filha Carla que, se antes era apenas famosa, integra hoje um pelotão de elite onde estão Amy Winehouse, Paris Hilton, Barack Obama e Hannah Montana (e observe que nem é preciso tocar no controle remoto para enfileirá-los). Na verdade, Remmert é que é pai de Carla e não Alberto Bruni Tadeschi; ela foi fruto de um caso extra-conjugal de sua mãe com o brasileiro. Mas, alívio, o ouro do berço não foi mexido nem um quilate.
Carla Gilberta Bruni Tedeschi (Remmert) Sarkozy nasceu na cidade de Torino, Itália, em dezembro de 1967. Por conta das perseguições do grupo comunista conhecido como Brigatte Rosse, foi com seus familiares para Paris. De lá para a Suíça. Da Suíça para Sorbonne, onde a honra da bem-nascença européia tomava um ar fresco que circulava antes de Margaret Tatcher chegar ao poder. Mas coração dos outros é terra em que ninguém vai e, aos 19 anos, C. G. Bruni trocaria os livros e a intelectualidade que se lhe acenavam pelas peças de Dior, Rabane, Christian Lacroix, Galliano, Saint-Laurent, Chanel e Versace, tornando-se a vanguarda do que hoje conhecemos como top models.
Até aqui, o fato de ser italiana seria o único motivo para que os franceses ficassem aborrecidos de ter Carla como prima donna, mas ela não se casou com Sarcozy naquela época e tampouco Sarko era assunto interessante pelas esquinas parisienses; a herdeira de uma fortuna e que, no momento, ganhava uma fortuna com as passarelas, iria cultivar ali um currículo extenso que deveria ser intitulado "o que uma primeira dama não deve ser: pontos governamentais que aborrecem muito os franceses". Carla Bruni cometeria um dos maiores pecados da vida política feminina: não ser mais virgem.
Quando, em 1998 resolveu deixar a alta-costura para se dedicar a música, a franco-italiana começou a desfiar uma lista de pretendentes minimamente bem composta; estavam no escrete Mick Jagger, Eric Clapton, Kevin Costner, Louis Bertignac, o magnata Donald Trump entre outros privilegiados. Nesse período, já era conhecida por receber os repórteres em sua casa com a célebre frase: "me desculpe atender assim de top less..." Nunca menos ousada, proclamava ainda ser a monogamia um tédio. De qualquer modo, foi viver, no início dos anos 2000, com o editor literário Jean Paul Enthoven , união feliz somente finalizada quando Carla, agora Bruni por força dos palcos, apaixonou-se pelo filho filósofo do marido. Cantado em verso e notas ao violão, Raphaël viria a ser o pai de seu primeiro filho:

Quatro consoantes e três vogais / É o nome de Raphaël / Murmura à minha orelha / E cada letra me enlouquece

Separaram-se.
Nesse ínterim, ao ano de 2002, Carla Bruni lança o aclamado Quelqu'un m'a dit (Alguém me disse), álbum delicioso, onde sua voz é deliciosa, as cordas do violão são deliciosas e as deliciosas letras próprias falavam do amor e seus possíveis desencontros. Seguiu então sua vida, lançou mais um agradável álbum, até que, num jantar-revés em casa de amigos, aos finais de 2007, conhece Sarko. Diz que ele havia sido fogoso desde o início e quilos de tablóides mais tarde, coisa de dois ou três meses, ela se casava com o atual presidente da França no Palais de l'Élysèe após um enlaçado Natal passado entre o Egito e Pétra.
Visitaram a Inglaterra em março desse ano, sob as expectativas da imprensa que já a via como uma bárbara entre as porcelanas da rainha. No entanto, Bruni portou-se como só Jackie Kennedy faria melhor, arrancando suspiros com suas fotos sempre à um passo atrás do marido, e passos sem salto alto de modo a não ficar muito maior que ele. As imagens, que se misturariam a declarações apaixonadas, podem até ser alguma estratégia política para desviar a atenção dos eleitores franceses sobre as promessas não cumpridas que Sarko fizera à classe média, mas não deixa de ser louvável, se for esse o caso, que o chefe dessa nação o esteja fazendo de um modo tão contemporâneo, tão gossip. E, a despeito de se considerar epidermicamente de esquerda, Bruni Sarkozy declara que votaria no marido caso ele se reelegesse.
Assim, público e eleitorado ficam satisfeitos. Às vésperas da ducentésima décima oitava comemoração da Queda da Bastilha, em julho deste ano, lá estava toda uma nação ansiosa para saber o que as novas canções de sua primeira dama falava sobre o presidente, e ninguém saiu decepcionado: uma das faixas do álbum Comme Si de Rien N'Etait (Como se não fosse nada) já causou, sozinha, um quase acidente diplomático, por comparar o amor sentido à branca colombiana. Também algumas novas fotos de nu que fizera foram reveladas, em algumas usava aliança inclusive. E assim se faz política. O disco vêm menos acústico, mas Carla é rodrigueanamente o próprio barulho que todo dono de jornaleco gostaria de ter em seu país.

 

Cartoon publicado no Obvious com texto de Priscilla Santos.

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