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Mulher da semana: Ana Ivanovic

por Henrique Monteiro, em 26.07.08

 
Em algum momento entre 1859 e 1865, Harry Gem e seu amigo espanhol Augurio Perera jogaram as primeiras e descompromissadas partidas de tênis sob nuvens britânicas. Não que o jogo se chamasse tênis naquele momento, era ainda uma mistura de dois outros jogos mas, já naqueles imprecisos momentos entre 1859 e 1865, estava acertado nas regras que empunhar uma raquete com força e destreza era o que realmente importava para a honra daquele esporte e de seus primeiros clubes, fundados em finais daquele mesmo século onde, mais tarde, os bem nascidos tomariam longos banhos de sol.
 
Mais cem anos mais tarde, depois daqueles eventos que alguns sutiãs foram queimados nas ruas, as mulheres já podiam contar com uma categoria profissional para o esporte, embora suas premiações fossem quase seis vezes menor que o prêmio total dos homens. De qualquer modo, ainda versava-se sobre batidas de direita com as duas mãos ou sobre saques e, ainda que na recém-nascida Associação Feminina de Tênis (a WTA) se pudesse ouvir sobre o plissado das saias ou formato mais em voga para as tranças, não haviam sido inseridas provas de maiot, nem a Victoria Secrets patrocinava qualquer um dos aparelhos mas, por alguma estranha razão – que demonstra a ironia do governo dos mundos – o tênis feminino é o esporte que consegue reunir o maior número de mulheres bonitas por metro quadrado de saibro. 
 
Ana Ivanovic caminha até o retângulo azul usando um vestido de tom vermelho. Iniciava seu duelo contra Jelena Lanković no último 23 de julho, como a tenista número 1 do mundo e diante, de toda inexplicação que nos leva à fé, demonstrou mais uma vez seu experimentado talento e destreza vencendo por dois <i>sets</i> – sendo o segundo impressionante – a sua conterrânea. Da mesma forma, demonstrou mais uma vez que não é exatamente o que se chama de mulher bonita, que é algo mais, é praticamente uma catástrofe natural dessas que acontecem em pontos isolados da Terra e a Discovery filma em estonteantes tomadas aéreas. Fez isso sem querer, e tem apenas vinte anos.
 
A admirável jovem, nascida em Belgrado, na Sérvia, tem em sua trajetória a memória e conseqüências dos bombardeios sofridos pelo país em 1999 que a isolou com toda a família em sua casa. Nada tem de coincidente com a biografia que geralmente têm os atletas desse esporte. Ela acredita que os eventos a fortaleceram e a fizeram ver a vida de modo mais otimista; conta que os pais procuravam cercar-se de amigos, de confiança: <i>ao menos haviam janelas</i>, completa. Treinava em horários que pareciam menos perigosos em quadras precárias e certa vez pensou em jogar numa piscina vazia por falta de lugar melhor. Mas em nada Ana lembra uma egressa da guerra. Nada em seus gestos e declarações inspiram sentimentos de misericórdia, expressa-se com maturidade dissonante e, na maioria das vezes, fala da própria idade como se fosse a de outra pessoa. Gosta de montanhas-russas, de ler, de filmes e de visitar escolas como embaixadora da UNICEF porque acredita que, assim, pode captar o interesse do governo sérvio no que toca aos incentivos ao esporte no pais. Tem razões para acreditar nisso, a emergência vitoriosa da Sérvia no tênis tem provocado o nascimento de uma nova tradição.
 
Os longos cabelos castanhos são quase do mesmo tom que os olhos, escuros. As pálpebras tanto fechadas lhe conferem todos e quaisquer adjetivos que se liguem a um só: lúbricos. Lábios frutíferos de onde saem sorrisos tão simpáticos que até as mulheres heterossexuais saem seduzidas. Tudo, inclusive as pernas cheias que sustentam os 1,85 de altura, perfeitamente desenhados pelo mesmo cara quem decidiu que as melhores tenistas do mundo seriam majoritariamente estonteantes e sensuais. Todos os atributos irão complementar os dez milhões de dólares que, segundo a revista Time, ela fará até o final do ano com as campanhas publicitárias e editoriais de moda. Tênis, raquetes, sucos de brócolis, Vougue Magazine... Não foi atoa que os vestidos balonê da Adidas preencheram páginas e páginas de revistas e, de lá, as quadras e academias onde as bem nascidas fariam longas sessões de <i>jump-fit</i>. Ivanovic posa em caras, bocas e interessantes pedaços anatômicos a mostra, embora não se ache muito bonita. O que Ana prefere mesmo é de aparecer fazendo seu gesto característico de fechar os punhos e sacudi-los enquanto serra os dentes a cada game ganho num Grand Slam.
 
Desenho publicado sexta-feira no Obvious com texto de Priscilla Santos.
 
 Por motivos campesinos, ausento-me por uns dias para o doce prazer de não fazer nenhum. Voltarei ao cartoon lá para o meio da semana que se segue. 
 Abraços, voltem,  comentem sempre e até lá. 

 

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